segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Vivenciando

Sentado sobre uma pedra, nem percebeu quando um monte de bosta despencou sobre sua cabeça. Um cheiro pútrido infestou o espaço à sua volta. Uma massa marrom e disforme cobria seu corpo. Sentiu-se como a própria substância que o encobria. Naquele momento nada o distinguia de um saco de merda. Passou as mãos sobre os olhos tentando limpar sua visão. Aquele pestilento odor estava sufocando-o. Tirou a merda do olho. Abriu a boca vagarosamente, a massa fecal desgrudou-se suavemente entre seus lábios. Conseguiu respirar. Ainda não conseguia raciocionar sobre o que havia acontecido. Estava ali, sentado, pensando sobre sua vida e lembrando-se de quando havia terminado seu namoro. Lúcia, uma menina rica e de boa família. Ele um pequeno trambiqueiro, drogado e cheio de imaginação. Seu relacionamento havia acabado. A culpa era sua. Uma discussão inócua, dois tiros certeiros. Foi o suficiente para mandar para o espaço dinheiro, conforto e uma garota gostosa e boa de cama. Havia sido neste exato momento em que a merda caiu sobre sua cabeça.

Pulou e a chacoalhou-se para limpar toda aquela porcaria. O gosto podre invadiu sua boca e pode sentir que aquilo já apodrecera há muito tempo. Mas porquê? Era ilógico. Sua mente grudava-se na lembraça de Lúcia enquanto lutava, em vão, para libertar-se daquele estado. Iria putrefazer. Correu. O vento livre batia em seus cabelos e ele já não distingüia nada à sua frente. As montanhas tornaram-se grandes maçãs verdes e o sol um enorme pirulito de caramelo. Estava correndo entre flores feitas de pano e sentindo um leve perfume de hortênsias. Lembrou da morte. Correu com mais força. Das maçãs à sua frente começaram a sair larvas, brancas e lisguentas. Enormes como se tocassem o céu numa tarde quente. Olhou ao seu lado e viu um lago cor de aniz. Uma vontade incontrolável arremessou-o para dentro da água. Sua visão turvou. Tudo ficou azul e foi clareando aos poucos. Mergulhava. Seus braços vigorosos movimentavam-se com força. Começou a ganhar velocidade. Seguia para o fundo, mais fundo, fundo e claro. Cada braçada lhe deixava mais perto da luz que vinha debaixo. Penetrou na claridade ofuscante.

Um branco alvo. Branco como roupa lavada por Omo. Sentiu frio. Seus ossos congelaram e agora não era mais um homem. Percebeu que tornare-se uma larva enorme, rastejava em direção à superficie de uma maçã verde. Ia invadindo a carne macia da fruta, arrastando-se para as bordas. Uma dentada. Meio corpo. Entrou num espaço escuro e molhado. Algo mole e quente mexia-se abaixo do seu meio corpo. Grandes blocos brancos moviam-se constantemente. Lentamente deslizou por uma tubulação escura-avermelhada. Viu-se num local revolto. Líqüidos pingavam, seu corpo misturava-se numa massa disforme. Aos poucos foi perdendo a identidade, era apenas um monte de coisa unida. Já não era mais um corpo. Escorregou por entre um labirinto de víceras. Foi evacuado.

3 comentários:

Haas Duman disse...

Esse é velho também. Bem nojentinho porém criativo. hehehe..

abracos

Unknown disse...

carlos, da onde vem tante inspiração?? Abraço. Evandro

JLL disse...

É, bitcho... Inspirado mesmo, hein!!! Abraços!!!
Jan