Sentado sobre uma pedra, nem percebeu quando um monte de bosta despencou sobre sua cabeça. Um cheiro pútrido infestou o espaço à sua volta. Uma massa marrom e disforme cobria seu corpo. Sentiu-se como a própria substância que o encobria. Naquele momento nada o distinguia de um saco de merda. Passou as mãos sobre os olhos tentando limpar sua visão. Aquele pestilento odor estava sufocando-o. Tirou a merda do olho. Abriu a boca vagarosamente, a massa fecal desgrudou-se suavemente entre seus lábios. Conseguiu respirar. Ainda não conseguia raciocionar sobre o que havia acontecido. Estava ali, sentado, pensando sobre sua vida e lembrando-se de quando havia terminado seu namoro. Lúcia, uma menina rica e de boa família. Ele um pequeno trambiqueiro, drogado e cheio de imaginação. Seu relacionamento havia acabado. A culpa era sua. Uma discussão inócua, dois tiros certeiros. Foi o suficiente para mandar para o espaço dinheiro, conforto e uma garota gostosa e boa de cama. Havia sido neste exato momento em que a merda caiu sobre sua cabeça.
Pulou e a chacoalhou-se para limpar toda aquela porcaria. O gosto podre invadiu sua boca e pode sentir que aquilo já apodrecera há muito tempo. Mas porquê? Era ilógico. Sua mente grudava-se na lembraça de Lúcia enquanto lutava, em vão, para libertar-se daquele estado. Iria putrefazer. Correu. O vento livre batia em seus cabelos e ele já não distingüia nada à sua frente. As montanhas tornaram-se grandes maçãs verdes e o sol um enorme pirulito de caramelo. Estava correndo entre flores feitas de pano e sentindo um leve perfume de hortênsias. Lembrou da morte. Correu com mais força. Das maçãs à sua frente começaram a sair larvas, brancas e lisguentas. Enormes como se tocassem o céu numa tarde quente. Olhou ao seu lado e viu um lago cor de aniz. Uma vontade incontrolável arremessou-o para dentro da água. Sua visão turvou. Tudo ficou azul e foi clareando aos poucos. Mergulhava. Seus braços vigorosos movimentavam-se com força. Começou a ganhar velocidade. Seguia para o fundo, mais fundo, fundo e claro. Cada braçada lhe deixava mais perto da luz que vinha debaixo. Penetrou na claridade ofuscante.
Um branco alvo. Branco como roupa lavada por Omo. Sentiu frio. Seus ossos congelaram e agora não era mais um homem. Percebeu que tornare-se uma larva enorme, rastejava em direção à superficie de uma maçã verde. Ia invadindo a carne macia da fruta, arrastando-se para as bordas. Uma dentada. Meio corpo. Entrou num espaço escuro e molhado. Algo mole e quente mexia-se abaixo do seu meio corpo. Grandes blocos brancos moviam-se constantemente. Lentamente deslizou por uma tubulação escura-avermelhada. Viu-se num local revolto. Líqüidos pingavam, seu corpo misturava-se numa massa disforme. Aos poucos foi perdendo a identidade, era apenas um monte de coisa unida. Já não era mais um corpo. Escorregou por entre um labirinto de víceras. Foi evacuado.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
A pirâmide
Sete centavos. Sete centavos saíam do seu bolso cada vez que a luz da copiadora passava de um lado para o outro. Ficou ali parado olhando a luminosidade implacável. Seu estômago doía. Tentou lembrar quanto dinheiro havia na carteira, tirou-a do bolso e contou as notas e moedas. Seis reais e trinta centavos. A copiadora, cruel, não parava seu serviço mordaz. A cada cópia um buraco maior na barriga.
Tentou ver a situação por outro prisma: se tivesse que comprar o livro inteiro talvez ficasse um mês sem almoço. Era uma situação surreal. Para defender sua barriga era responsável pelo ronco de outra, a do autor. Atormentado por estes pensamentos resolveu despistar as idéias. As letrinhas xerocadas até que eram interessantes: Comunicação de Massa, a fórmula do sucesso. Se conseguisse chegar ao final do curso e entender todas os meios pelos quais se podem persuadir, controlar ou manipular as pessoas poderia ser o dono da Xerox ou, pelo menos, o publicitário deles.
- Seis reais e nove centavos. Mais alguma coisa?
- O troco.
Agora tinha vinte e um centavos no bolso e oitenta e sete páginas, a mais, na pasta. Ficou feliz. Seria o publicitário da Xerox.
Tentou passar rapidamente pela praça de alimentação, queria chegar logo à sala de aula. Precisava pensar, bolar alguma coisa diferente, encontrar uma fórmula nova; entender a mente e os hábitos do consumidor. Porém, neste momento, seu desejo não deixava suas idéias irem além do minicalzone de frango. Um real e setenta centavos. Era tudo que o separava do deleite da fome saciada.
Não estava se dando conta que naquele momento começava a entender a pirâmide de Maslow, as necessidades do ser humano. Subindo as escadas se imaginou de terno, gravata e sapatos lustrosos. Entrava num elevador panorâmico, executivas com pastas nos braços sorriam-lhe com seus dentes brancos e perfumes envolventes. Sem saber por que isto lhe lembrava comida. Tropeçou em Martinha, colega de turma.
- Desculpe.
- Não foi nada. Estudou para a prova?
- Prova? Agora?
- Sim, nessa aula.
- Tem um real e quarenta e nove centavos?
Talvez fosse Maslow, quem sabe era uma maldição. Não conseguia pensar noutra coisa. Massa macia. Carne tenra. Fome morta. Martinha foi legal. Dois reais e cinqüenta centavos. Decidiu voltar e resolver, de uma vez por todas, a situação. Escada abaixo, nem reparou que o sinal já havia soado e que as cantinas, que há pouco tempo serviam os estudantes, já cerravam as portas. Seus olhos não queriam acreditar, mas nada mais estava aberto. Já não havia mais a necessidade de calzone. Poderia ser qualquer coisa. Necessidades primárias. Um pastel, uma fogaça, um empadão ou, até mesmo, um mísero Elma Chips. Precisava desesperadamente de algo para saciar aquela sensação de vazio.
Apressou os passos. Teria que sair da faculdade, um dia isto iria mesmo acontecer. Teria que procurar lá fora o que não encontrara aqui dentro. Encontrou no bar. Um kibe, o último do balcão. Gorduroso e grande, bem do jeito que sua fome queria. Um real e quarenta. Sentou, relaxado. Mordeu vagarosamente a massa, já fria, do alimento. Que delícia. Lembrou da Xerox. Estava sentado na mesa de reuniões. Muitas assistentes em sua volta, mulheres lindas, perfumadas, sorriam-lhe com seus dentes brancos. Começou a pensar num slogan. Mais uma mordida no kibe. Passou o guardanapo nos lábios. Era isso, num insight saiu: Xerox, reproduzindo a vida. Agora sim, sentia-se galgando a pirâmide de Maslow. Pediu uma laranjinha, ainda tinha um real e onze centavos, uma fortuna. Isto é que era vida.
Tentou ver a situação por outro prisma: se tivesse que comprar o livro inteiro talvez ficasse um mês sem almoço. Era uma situação surreal. Para defender sua barriga era responsável pelo ronco de outra, a do autor. Atormentado por estes pensamentos resolveu despistar as idéias. As letrinhas xerocadas até que eram interessantes: Comunicação de Massa, a fórmula do sucesso. Se conseguisse chegar ao final do curso e entender todas os meios pelos quais se podem persuadir, controlar ou manipular as pessoas poderia ser o dono da Xerox ou, pelo menos, o publicitário deles.
- Seis reais e nove centavos. Mais alguma coisa?
- O troco.
Agora tinha vinte e um centavos no bolso e oitenta e sete páginas, a mais, na pasta. Ficou feliz. Seria o publicitário da Xerox.
Tentou passar rapidamente pela praça de alimentação, queria chegar logo à sala de aula. Precisava pensar, bolar alguma coisa diferente, encontrar uma fórmula nova; entender a mente e os hábitos do consumidor. Porém, neste momento, seu desejo não deixava suas idéias irem além do minicalzone de frango. Um real e setenta centavos. Era tudo que o separava do deleite da fome saciada.
Não estava se dando conta que naquele momento começava a entender a pirâmide de Maslow, as necessidades do ser humano. Subindo as escadas se imaginou de terno, gravata e sapatos lustrosos. Entrava num elevador panorâmico, executivas com pastas nos braços sorriam-lhe com seus dentes brancos e perfumes envolventes. Sem saber por que isto lhe lembrava comida. Tropeçou em Martinha, colega de turma.
- Desculpe.
- Não foi nada. Estudou para a prova?
- Prova? Agora?
- Sim, nessa aula.
- Tem um real e quarenta e nove centavos?
Talvez fosse Maslow, quem sabe era uma maldição. Não conseguia pensar noutra coisa. Massa macia. Carne tenra. Fome morta. Martinha foi legal. Dois reais e cinqüenta centavos. Decidiu voltar e resolver, de uma vez por todas, a situação. Escada abaixo, nem reparou que o sinal já havia soado e que as cantinas, que há pouco tempo serviam os estudantes, já cerravam as portas. Seus olhos não queriam acreditar, mas nada mais estava aberto. Já não havia mais a necessidade de calzone. Poderia ser qualquer coisa. Necessidades primárias. Um pastel, uma fogaça, um empadão ou, até mesmo, um mísero Elma Chips. Precisava desesperadamente de algo para saciar aquela sensação de vazio.
Apressou os passos. Teria que sair da faculdade, um dia isto iria mesmo acontecer. Teria que procurar lá fora o que não encontrara aqui dentro. Encontrou no bar. Um kibe, o último do balcão. Gorduroso e grande, bem do jeito que sua fome queria. Um real e quarenta. Sentou, relaxado. Mordeu vagarosamente a massa, já fria, do alimento. Que delícia. Lembrou da Xerox. Estava sentado na mesa de reuniões. Muitas assistentes em sua volta, mulheres lindas, perfumadas, sorriam-lhe com seus dentes brancos. Começou a pensar num slogan. Mais uma mordida no kibe. Passou o guardanapo nos lábios. Era isso, num insight saiu: Xerox, reproduzindo a vida. Agora sim, sentia-se galgando a pirâmide de Maslow. Pediu uma laranjinha, ainda tinha um real e onze centavos, uma fortuna. Isto é que era vida.
Cerveja, cueca e cinema
Sentou e pediu logo duas doses de uísque.
- Rápido que estou com sede!
O garçom olhou sobre os ombros, jogou o pano sobre o balcão e vagarosamente andou até a prateleira das bebidas.
- Com gelo? - Perguntou, assim, meio sem querer falar.
- Puro. Sem gelo. E pode deixar a garrafa sobre o balcão. - Respondeu com ar de quem iria afundar as mágoas do dia.
O garçom já estava acostumado com essas situações. O marido traído que pegou a mulher no flagra. O corno que levou um chute. Ou o funcionário exemplar demitido injustamente. Mas aquele ali parecia ser diferente, havia algo em seu olhar. Melancolia, ingenuidade. Resolveu investigar.
- Não prefere uma cerveja? Gelada, mais leve. Com colarinho. Aí você poderá relaxar, curtir a noite. Paquerar. Olhar para aquela lua linda.
- Puta que pariu! Eu pedi duas doses de uísque, sem gelo. Puro. É difícil entender ou terei que, eu mesmo, ir até aí e me servir?
- Não. Eu só pensei que...
- Eu pedi para você pensar? Pedi para você servir. Duas doses, mais nada. - Realmente sua irritação começa a transparecer. Algumas gotas de suor escorreram por sua testa, as veias laterais estavam dilatadas, forçando a pele, como se quisessem pular para fora e deixar jorrar o sangue.
- Tudo bem. Este uísque não é dos melhores mesmo, eu já queria me livrar dele. - disse isto derrubando a garrafa no chão.
Os olhos de Artêmio, este é o nome do cliente, se encheram de cólera. Viu seu precioso líqüido escorrer pelo chão sujo, daquele bar imundo. Sua respiração ofegante deixava à mostra suas narinas peludas. Pulou por sobre o balcão e agarrou o garçom pelo colarinho.
- Como ousa! - As palavras escaparam de sua mente. Não conseguiu balbuciar mais nenhuma letra. Ficou atônito quando sentiu o bigode grosso do garçom em seu lábios. Nunca havia imaginado algo assim.
Tentou ainda desvencilhar-se. Em vão. Não pode resistir ao beijo caloroso. Aquela língua áspera e molhada invadiu sua boca.
Nilson, o garçom, empurrou-o para os fundos do bar. Sentou Artêmio sobre uma caixa de cerveja e começou a tirar sua própria camisa. Artêmio estava ali, pálido, sem ação. Seus olhos estavam fixos, vidrados. Nilson, como se estivesse ouvindo uma música, rebolava e puxava sua cueca de lacinho. Dois pequenos corações enfeitavam sua traseira.
Artêmio não resistiu, se entregou aos braços carnudos. Ficaram até amanhecer entre as caixas de cerveja e a porta do banheiro encardido. Revezavam-se no ato e, a cada instante, repetiam juras de amor.
- Eu vi isso no cinema, mas nunca achei que aconteceria comigo. - Disse Nilson, ainda sedado de êxtase. Artêmio sorriu levemente e fechou a boca de seu parceiro com um dedinho: - Shhh. Silêncio, não fale nada.
- Rápido que estou com sede!
O garçom olhou sobre os ombros, jogou o pano sobre o balcão e vagarosamente andou até a prateleira das bebidas.
- Com gelo? - Perguntou, assim, meio sem querer falar.
- Puro. Sem gelo. E pode deixar a garrafa sobre o balcão. - Respondeu com ar de quem iria afundar as mágoas do dia.
O garçom já estava acostumado com essas situações. O marido traído que pegou a mulher no flagra. O corno que levou um chute. Ou o funcionário exemplar demitido injustamente. Mas aquele ali parecia ser diferente, havia algo em seu olhar. Melancolia, ingenuidade. Resolveu investigar.
- Não prefere uma cerveja? Gelada, mais leve. Com colarinho. Aí você poderá relaxar, curtir a noite. Paquerar. Olhar para aquela lua linda.
- Puta que pariu! Eu pedi duas doses de uísque, sem gelo. Puro. É difícil entender ou terei que, eu mesmo, ir até aí e me servir?
- Não. Eu só pensei que...
- Eu pedi para você pensar? Pedi para você servir. Duas doses, mais nada. - Realmente sua irritação começa a transparecer. Algumas gotas de suor escorreram por sua testa, as veias laterais estavam dilatadas, forçando a pele, como se quisessem pular para fora e deixar jorrar o sangue.
- Tudo bem. Este uísque não é dos melhores mesmo, eu já queria me livrar dele. - disse isto derrubando a garrafa no chão.
Os olhos de Artêmio, este é o nome do cliente, se encheram de cólera. Viu seu precioso líqüido escorrer pelo chão sujo, daquele bar imundo. Sua respiração ofegante deixava à mostra suas narinas peludas. Pulou por sobre o balcão e agarrou o garçom pelo colarinho.
- Como ousa! - As palavras escaparam de sua mente. Não conseguiu balbuciar mais nenhuma letra. Ficou atônito quando sentiu o bigode grosso do garçom em seu lábios. Nunca havia imaginado algo assim.
Tentou ainda desvencilhar-se. Em vão. Não pode resistir ao beijo caloroso. Aquela língua áspera e molhada invadiu sua boca.
Nilson, o garçom, empurrou-o para os fundos do bar. Sentou Artêmio sobre uma caixa de cerveja e começou a tirar sua própria camisa. Artêmio estava ali, pálido, sem ação. Seus olhos estavam fixos, vidrados. Nilson, como se estivesse ouvindo uma música, rebolava e puxava sua cueca de lacinho. Dois pequenos corações enfeitavam sua traseira.
Artêmio não resistiu, se entregou aos braços carnudos. Ficaram até amanhecer entre as caixas de cerveja e a porta do banheiro encardido. Revezavam-se no ato e, a cada instante, repetiam juras de amor.
- Eu vi isso no cinema, mas nunca achei que aconteceria comigo. - Disse Nilson, ainda sedado de êxtase. Artêmio sorriu levemente e fechou a boca de seu parceiro com um dedinho: - Shhh. Silêncio, não fale nada.
Chantilly Sonhos & Doces
[este não é bem um conto, mas resolvi guardar aqui]
Pablo Uerblen Nechuda e Maria Da´Macir Nechuda tiveram uma vida pacata até os anos 50 no Peru. Vindos de uma família humilde, o sorridente casal, tinha uma fibra firme e esmero no trabalho. Maria desde seu casamento cuidava da culinária de casa com carinho e atenção enquanto Pablo, destemido homem do campo, deliciava-se com os quitutes da Maria.
Em 1952 o casal resolveu estender aos vizinhos as delícias produzidas pela velha peruana. Com seis filhos pequenos, Yosek Uerblen Nechuda, Madupancha Uerblen Nechuda, Xapecoléco Macchupichu Nechuda, Neilluda Vioben Nechuda e o pequeno Leandrón Tuxoleta Nechuda a esforçada Maria dividia seu tempo entre o fogão à lenha e as fraldas dos rebentos. Durante os cinco anos seguintes produziram bolos, pães e deliciosos ´Rosquetones´ bolinho tradicional peruano, feito de folhas de Yaushka com recheio de Peiote do Campo. Os bolinhos, carinhosamente, nomeados pelos viajantes como ´Rosquetones´ foram o primeiro grande sucesso do casal. Nesta época ainda não havia um nome definido para o pequeno empreendimento. Em 1959 expandiram seus negócios e abriram sob o nome ´La Roquesta Da´Macir ´, dando ênfase aos famosos ´Rosquetones´.
Os negócios foram bem até o ano de 1972 quando o sistema econômico veio a ruir. A ditadura peruana fechou o cerco contra as produções caseiras de brioches e empanados, alegando que a venda de Rosquetones estava subvertendo a ordem e causando instabilidades na administração governamental. Desta forma, sem alternativas, o casal e seus seis filhos embrenharam-se numa fuga do país. Num primeiro momento encontraram abrigo na Bolívia. Lá conheceram Manuel dos Reis, renomado escritor e empresário. Manuel ajudou a família peruana durante três anos e ensinou a Maria a arte de fazer doces portugueses e também técnicas de extrusão de pellets de plásticos. A vida transcorria tranqüila e em 1976, Pablo, já cansado de andanças, mas para não deixar seu filho do meio, Madupancha, se envolver com as FARC, resolveu ir embora da Bolívia. Após uma consulta aos búzios e jogos de Tarôt, ficou decidido que deveriam vir para o Brasil, especialmente para a região Sul deste país. Foi desta forma, com uma mala nas costas e seis filhos a tiracolo, que em 1978 desembarcou em Blumenau Pablo Nechuda.
Madupancha havia conseguido dinheiro suficiente para que todos fizessem a viagem de trêm e ainda havia sobrado cascalho para comprar uma pequena casa na germânica cidade de Santa Catarina, dois carros, uma moto e um pequeno prédio comercial próximo ao Rio Itajaí-Açu, região central de Blumenau. Pablo estava feliz e cansado. Maria ensinava aos seus filhos, especialmente à Neilluda, as artes da cozinha e da confeitaria. Para o mais novo, Leandrón Tuxoleta, ela ensinou a técnica de extrusão de pellets, que no futuro poderia ser de muita valia. A família viveu feliz na cidade que os acolheu com tanto carinho. Montaram sua doceria em 1983, quando o dinheiro que Madupancha havia conseguido estava acabando. Precisavam de um ofício. Todos trabalharam unidos. Maria e Neiluda cuidavam da produção, Xapecoléco e Yosek atendiam os consumidores no balcão, Leandrón ficou responsável pela administração interna, limpeza e estoque, enquanto Madupancha cuidava do caixa e das ações de marketing da empresa. Pablo ficou em casa, descansando. Dentro desta organização e com muita festa no dia 15 de fevereiro de 1983 foi inaugurada a “Chantilly, doces & sonhos”.
Desde o começo a empresa contava com uma forte concorrência das confeitarias alemãs, mas seu diferencial – o Rosquetone e os bolos portugueses – foram o suficiente para garantir o sucesso da empresa. Durante 10 anos a empresa progrediu e avançou no mercado. Criou novos produtos como os bolos para as noivas com estampas sexys e bolos para festas de debutantes em cores vibrantes. Fortaleceram sua marca com anúncios na mídia local e campanhas relâmpagos. Além de ações de invasões nas empresas para degustação de produtos novos que estavam sendo lançados no mercado. Com este arrojo e sempre voltados para seu principal objetivo, satisfação total do cliente, a Chantilly expandiu suas fronteiras. Abriu lojas em Gaspar, Brusque, Joinville, Itajaí e na pequena cidade de Antônio Carlos. Sucesso estrondoso.
Com passar dos anos desenvolveu um sistema de produção e entrega eficaz. Lançou o sistema “Buelo Delivery” que fazia a entrega de bolos nas festas de aniversários, casamentos e até nos chás das cinco. Tudo ía muito bem, até que em 1995 Pablo morre. Morreu deitado, dormindo em sua rede. Maria não resistiu à morte do marido, definhou e morreu dois meses depois. Abalado Madupancha vendeu tudo, deu uma parte do dinheiro para os irmãos e fugiu para o México. Passou dois anos envolvidos em noitadas e em companhia de pessoas de pouca confiança. Um certo dia, sentado à beira do deserto teve uma visão e decidiu voltar para o Brasil, rever os irmãos e morar numa ilha. Determinado comprou um carro com o último dinheiro que restava no bolso. Viajou dia e noite sem parar e finalmente chegou no Brasil, Santa Catarina, mais especificamente, Florianópolis. Corria o ano de 1998 quando ele debruçou-se sobre o trabalho de procurar seus irmãos.
Conseguiu a dura custa convencer Yosek a voltar do Peru, lugar para onde havia voltado após a venda da rede. Yosek, já casado e mais cabeludo, voltou rapidamente para os braços do irmão. Xapecoléco havia comprado uma chácara no oeste do estado e estava desanimado para voltar. Neilluda havia aberto uma pequena loja de confecções, estava casada e mais magra. Leandrón Tuxoleta foi mais fácil, ele havia tornado-se um artesão, vivia pelas ruas de Gaspar fazendo estuetas de Durepox.
Foi nesta fase que Madupancha encontrou Jarmíneo Orelhas Quatro. Jarmíneo teve um papel fundamental na história atual da Chantilly. Pescador e profundo conhecedor da vida urbana da capital catarinense, Jarmíneo, sabia exatamente os melhores locais para se atuar. Foi com sua ajuda que os irmãos, novamente reunidos, compraram o ponto no Estreito, em Florianópolis, para montar sua confeitaria. Este foi um ponto estratégico para o negócio. Bem localizado, no continente, região de bom fluxo de pessoas, próximo ao centro e perto de outros bairros residenciais. Então em 2 de fevereiro de 1999 reinaugurava a ‘Chantilly, sonhos & doces’. Agora, além da bagagem pessoal de cada um, traziam juntos o Jarmíneo como sócio. Começaram devagar, porém, com o know-hall adquirido das experiências anteriores, rapidamente conseguiram se destacar e em meados de 2000 inaguraram sua loja no centro de Florianópolis. E, em mais uma dica certeira do Jarmíneo, investiram numa loja no Kobrasol. Esta estrutura se mantém até os dias atuais.
As receitas foram diversificadas, não produzem mais os famosos Rosquetones como forma de homenagem a Maria e todos os meses fazem uma festa de confraternização com os funcionários em lembrança de Pablo.
O mix de produtos atuais ganhou uma maior variedade, bolos de diversas formas e sabores, salgados de forno, empanados e doces clássicos como “Baba de moça” e “Torta Alemã” fazem parte do cardápio. Contam com um sistema de delivery com dois carros e se preparam para lançar um novo produto, que já promete ser sucesso. O bolo “Festerê”. Um bolo com três camadas diferenciadas e com um tamanho adequado para festas de confraternização em escritórios e empresas. Este bolo conta com o diferencial de ser feito com leite puro e frutas frescas. Uma deliciosa cobertura de chantilly, com pedaços de frutas, dão o acabamento. O produto terá três opções pré-determinadas: “Festerê Jurerê”, “Festerê Moçamba” e “Festerê Santinho”. Os nomes geniais também foram uma sugestão do sócio Jarmíneo. A família continua feliz e crescendo. Madupancha acredita quem em dois anos conseguirão abrir lojas em todo o estado.
Pablo Uerblen Nechuda e Maria Da´Macir Nechuda tiveram uma vida pacata até os anos 50 no Peru. Vindos de uma família humilde, o sorridente casal, tinha uma fibra firme e esmero no trabalho. Maria desde seu casamento cuidava da culinária de casa com carinho e atenção enquanto Pablo, destemido homem do campo, deliciava-se com os quitutes da Maria.
Em 1952 o casal resolveu estender aos vizinhos as delícias produzidas pela velha peruana. Com seis filhos pequenos, Yosek Uerblen Nechuda, Madupancha Uerblen Nechuda, Xapecoléco Macchupichu Nechuda, Neilluda Vioben Nechuda e o pequeno Leandrón Tuxoleta Nechuda a esforçada Maria dividia seu tempo entre o fogão à lenha e as fraldas dos rebentos. Durante os cinco anos seguintes produziram bolos, pães e deliciosos ´Rosquetones´ bolinho tradicional peruano, feito de folhas de Yaushka com recheio de Peiote do Campo. Os bolinhos, carinhosamente, nomeados pelos viajantes como ´Rosquetones´ foram o primeiro grande sucesso do casal. Nesta época ainda não havia um nome definido para o pequeno empreendimento. Em 1959 expandiram seus negócios e abriram sob o nome ´La Roquesta Da´Macir ´, dando ênfase aos famosos ´Rosquetones´.
Os negócios foram bem até o ano de 1972 quando o sistema econômico veio a ruir. A ditadura peruana fechou o cerco contra as produções caseiras de brioches e empanados, alegando que a venda de Rosquetones estava subvertendo a ordem e causando instabilidades na administração governamental. Desta forma, sem alternativas, o casal e seus seis filhos embrenharam-se numa fuga do país. Num primeiro momento encontraram abrigo na Bolívia. Lá conheceram Manuel dos Reis, renomado escritor e empresário. Manuel ajudou a família peruana durante três anos e ensinou a Maria a arte de fazer doces portugueses e também técnicas de extrusão de pellets de plásticos. A vida transcorria tranqüila e em 1976, Pablo, já cansado de andanças, mas para não deixar seu filho do meio, Madupancha, se envolver com as FARC, resolveu ir embora da Bolívia. Após uma consulta aos búzios e jogos de Tarôt, ficou decidido que deveriam vir para o Brasil, especialmente para a região Sul deste país. Foi desta forma, com uma mala nas costas e seis filhos a tiracolo, que em 1978 desembarcou em Blumenau Pablo Nechuda.
Madupancha havia conseguido dinheiro suficiente para que todos fizessem a viagem de trêm e ainda havia sobrado cascalho para comprar uma pequena casa na germânica cidade de Santa Catarina, dois carros, uma moto e um pequeno prédio comercial próximo ao Rio Itajaí-Açu, região central de Blumenau. Pablo estava feliz e cansado. Maria ensinava aos seus filhos, especialmente à Neilluda, as artes da cozinha e da confeitaria. Para o mais novo, Leandrón Tuxoleta, ela ensinou a técnica de extrusão de pellets, que no futuro poderia ser de muita valia. A família viveu feliz na cidade que os acolheu com tanto carinho. Montaram sua doceria em 1983, quando o dinheiro que Madupancha havia conseguido estava acabando. Precisavam de um ofício. Todos trabalharam unidos. Maria e Neiluda cuidavam da produção, Xapecoléco e Yosek atendiam os consumidores no balcão, Leandrón ficou responsável pela administração interna, limpeza e estoque, enquanto Madupancha cuidava do caixa e das ações de marketing da empresa. Pablo ficou em casa, descansando. Dentro desta organização e com muita festa no dia 15 de fevereiro de 1983 foi inaugurada a “Chantilly, doces & sonhos”.
Desde o começo a empresa contava com uma forte concorrência das confeitarias alemãs, mas seu diferencial – o Rosquetone e os bolos portugueses – foram o suficiente para garantir o sucesso da empresa. Durante 10 anos a empresa progrediu e avançou no mercado. Criou novos produtos como os bolos para as noivas com estampas sexys e bolos para festas de debutantes em cores vibrantes. Fortaleceram sua marca com anúncios na mídia local e campanhas relâmpagos. Além de ações de invasões nas empresas para degustação de produtos novos que estavam sendo lançados no mercado. Com este arrojo e sempre voltados para seu principal objetivo, satisfação total do cliente, a Chantilly expandiu suas fronteiras. Abriu lojas em Gaspar, Brusque, Joinville, Itajaí e na pequena cidade de Antônio Carlos. Sucesso estrondoso.
Com passar dos anos desenvolveu um sistema de produção e entrega eficaz. Lançou o sistema “Buelo Delivery” que fazia a entrega de bolos nas festas de aniversários, casamentos e até nos chás das cinco. Tudo ía muito bem, até que em 1995 Pablo morre. Morreu deitado, dormindo em sua rede. Maria não resistiu à morte do marido, definhou e morreu dois meses depois. Abalado Madupancha vendeu tudo, deu uma parte do dinheiro para os irmãos e fugiu para o México. Passou dois anos envolvidos em noitadas e em companhia de pessoas de pouca confiança. Um certo dia, sentado à beira do deserto teve uma visão e decidiu voltar para o Brasil, rever os irmãos e morar numa ilha. Determinado comprou um carro com o último dinheiro que restava no bolso. Viajou dia e noite sem parar e finalmente chegou no Brasil, Santa Catarina, mais especificamente, Florianópolis. Corria o ano de 1998 quando ele debruçou-se sobre o trabalho de procurar seus irmãos.
Conseguiu a dura custa convencer Yosek a voltar do Peru, lugar para onde havia voltado após a venda da rede. Yosek, já casado e mais cabeludo, voltou rapidamente para os braços do irmão. Xapecoléco havia comprado uma chácara no oeste do estado e estava desanimado para voltar. Neilluda havia aberto uma pequena loja de confecções, estava casada e mais magra. Leandrón Tuxoleta foi mais fácil, ele havia tornado-se um artesão, vivia pelas ruas de Gaspar fazendo estuetas de Durepox.
Foi nesta fase que Madupancha encontrou Jarmíneo Orelhas Quatro. Jarmíneo teve um papel fundamental na história atual da Chantilly. Pescador e profundo conhecedor da vida urbana da capital catarinense, Jarmíneo, sabia exatamente os melhores locais para se atuar. Foi com sua ajuda que os irmãos, novamente reunidos, compraram o ponto no Estreito, em Florianópolis, para montar sua confeitaria. Este foi um ponto estratégico para o negócio. Bem localizado, no continente, região de bom fluxo de pessoas, próximo ao centro e perto de outros bairros residenciais. Então em 2 de fevereiro de 1999 reinaugurava a ‘Chantilly, sonhos & doces’. Agora, além da bagagem pessoal de cada um, traziam juntos o Jarmíneo como sócio. Começaram devagar, porém, com o know-hall adquirido das experiências anteriores, rapidamente conseguiram se destacar e em meados de 2000 inaguraram sua loja no centro de Florianópolis. E, em mais uma dica certeira do Jarmíneo, investiram numa loja no Kobrasol. Esta estrutura se mantém até os dias atuais.
As receitas foram diversificadas, não produzem mais os famosos Rosquetones como forma de homenagem a Maria e todos os meses fazem uma festa de confraternização com os funcionários em lembrança de Pablo.
O mix de produtos atuais ganhou uma maior variedade, bolos de diversas formas e sabores, salgados de forno, empanados e doces clássicos como “Baba de moça” e “Torta Alemã” fazem parte do cardápio. Contam com um sistema de delivery com dois carros e se preparam para lançar um novo produto, que já promete ser sucesso. O bolo “Festerê”. Um bolo com três camadas diferenciadas e com um tamanho adequado para festas de confraternização em escritórios e empresas. Este bolo conta com o diferencial de ser feito com leite puro e frutas frescas. Uma deliciosa cobertura de chantilly, com pedaços de frutas, dão o acabamento. O produto terá três opções pré-determinadas: “Festerê Jurerê”, “Festerê Moçamba” e “Festerê Santinho”. Os nomes geniais também foram uma sugestão do sócio Jarmíneo. A família continua feliz e crescendo. Madupancha acredita quem em dois anos conseguirão abrir lojas em todo o estado.
Um dia chega
Você já pensou em quando irá morrer? Já tem idéia do dia, hora ou local? Imagina que será uma morte rápida? Tiro? Asfixia? Mais romântica talvez, uma morte natural aos 87 anos de idade? Bem, são todas possibilidades. Na realidade não costumamos pensar muito no assunto. Apesar da banalização da morte nos dias atuais, a nossa própria é um tabu. Muitas vezes ela chega de forma clara e definida como um câncer no cérebro. Outras, chega de mansinho e arrasa cidades inteiras como um tsunami. Para alguns basta um gole num caldo de cana, para outros a queda de um trem de pouso sobre a cabeça. O que é inegável é que ela chega. Ah, chega.
Dona Luiza, 67 anos, morena clara e cabelos grisalhos. Braços fortes de trabalhar no campo. Era uma senhora simpática, aberta e comunicativa. Os vizinhos chamavam-na de Dona Lu. Tinha um sítio em São Pedro de Alcântara, pertinho de Florianópolis. Dona Lu gostava da natureza, amava os animais. Em suas terras abrigava os mais diversos tipos de seres: galinhas, cavalos, vacas, cachorros e até um chimpanzé barbado. Devido ao seu laço afetivo com estes sortudos bichinhos, fez logo parte da Sociedade Protetora dos Animais. Esta entidade, vez ou outra, lhe mandava alguns animaizinhos que precisavam de proteção e carinho. Foi assim com Filó, uma simpática vaquinha que chegou ao sítio de Dona Lu fraquinha e maltratada. Seu antigo dono judiava-lhe as ancas ao fazer girar a moenda de cana. Dona Lu e Filó acabaram amigas, todo dia a vaquinha era alimentada e acariciada pelas mãos calejadas da meiga senhora. Certa tarde Dona Lu foi até o pasto. Filó estava admirando a paisagem, olhava as terras verdes, o céu azul e o sol preguiçoso iluminando o dia. Dona Lu se aproximou e acariciou o couro áspero de Filó. Na sua rotina notou algo diferente, um pequeno pássaro havia caído perto de Filó. Pobre passarinho. Ela baixou para apanhá-lo. Acolheu-o em seus dedos e mal teve tempo de levantar. Sentiu o peso dos duros ossos de Filó sobre seu corpo. A morte para a vaca chegou de repente, já Dona Lu, viu-a se aproximar de mansinho. Ficaram ali os três, Dona Lu, Filó e o passarinho.
Dona Luiza, 67 anos, morena clara e cabelos grisalhos. Braços fortes de trabalhar no campo. Era uma senhora simpática, aberta e comunicativa. Os vizinhos chamavam-na de Dona Lu. Tinha um sítio em São Pedro de Alcântara, pertinho de Florianópolis. Dona Lu gostava da natureza, amava os animais. Em suas terras abrigava os mais diversos tipos de seres: galinhas, cavalos, vacas, cachorros e até um chimpanzé barbado. Devido ao seu laço afetivo com estes sortudos bichinhos, fez logo parte da Sociedade Protetora dos Animais. Esta entidade, vez ou outra, lhe mandava alguns animaizinhos que precisavam de proteção e carinho. Foi assim com Filó, uma simpática vaquinha que chegou ao sítio de Dona Lu fraquinha e maltratada. Seu antigo dono judiava-lhe as ancas ao fazer girar a moenda de cana. Dona Lu e Filó acabaram amigas, todo dia a vaquinha era alimentada e acariciada pelas mãos calejadas da meiga senhora. Certa tarde Dona Lu foi até o pasto. Filó estava admirando a paisagem, olhava as terras verdes, o céu azul e o sol preguiçoso iluminando o dia. Dona Lu se aproximou e acariciou o couro áspero de Filó. Na sua rotina notou algo diferente, um pequeno pássaro havia caído perto de Filó. Pobre passarinho. Ela baixou para apanhá-lo. Acolheu-o em seus dedos e mal teve tempo de levantar. Sentiu o peso dos duros ossos de Filó sobre seu corpo. A morte para a vaca chegou de repente, já Dona Lu, viu-a se aproximar de mansinho. Ficaram ali os três, Dona Lu, Filó e o passarinho.
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