segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A pirâmide

Sete centavos. Sete centavos saíam do seu bolso cada vez que a luz da copiadora passava de um lado para o outro. Ficou ali parado olhando a luminosidade implacável. Seu estômago doía. Tentou lembrar quanto dinheiro havia na carteira, tirou-a do bolso e contou as notas e moedas. Seis reais e trinta centavos. A copiadora, cruel, não parava seu serviço mordaz. A cada cópia um buraco maior na barriga.

Tentou ver a situação por outro prisma: se tivesse que comprar o livro inteiro talvez ficasse um mês sem almoço. Era uma situação surreal. Para defender sua barriga era responsável pelo ronco de outra, a do autor. Atormentado por estes pensamentos resolveu despistar as idéias. As letrinhas xerocadas até que eram interessantes: Comunicação de Massa, a fórmula do sucesso. Se conseguisse chegar ao final do curso e entender todas os meios pelos quais se podem persuadir, controlar ou manipular as pessoas poderia ser o dono da Xerox ou, pelo menos, o publicitário deles.
- Seis reais e nove centavos. Mais alguma coisa?
- O troco.
Agora tinha vinte e um centavos no bolso e oitenta e sete páginas, a mais, na pasta. Ficou feliz. Seria o publicitário da Xerox.
Tentou passar rapidamente pela praça de alimentação, queria chegar logo à sala de aula. Precisava pensar, bolar alguma coisa diferente, encontrar uma fórmula nova; entender a mente e os hábitos do consumidor. Porém, neste momento, seu desejo não deixava suas idéias irem além do minicalzone de frango. Um real e setenta centavos. Era tudo que o separava do deleite da fome saciada.
Não estava se dando conta que naquele momento começava a entender a pirâmide de Maslow, as necessidades do ser humano. Subindo as escadas se imaginou de terno, gravata e sapatos lustrosos. Entrava num elevador panorâmico, executivas com pastas nos braços sorriam-lhe com seus dentes brancos e perfumes envolventes. Sem saber por que isto lhe lembrava comida. Tropeçou em Martinha, colega de turma.
- Desculpe.
- Não foi nada. Estudou para a prova?
- Prova? Agora?
- Sim, nessa aula.
- Tem um real e quarenta e nove centavos?
Talvez fosse Maslow, quem sabe era uma maldição. Não conseguia pensar noutra coisa. Massa macia. Carne tenra. Fome morta. Martinha foi legal. Dois reais e cinqüenta centavos. Decidiu voltar e resolver, de uma vez por todas, a situação. Escada abaixo, nem reparou que o sinal já havia soado e que as cantinas, que há pouco tempo serviam os estudantes, já cerravam as portas. Seus olhos não queriam acreditar, mas nada mais estava aberto. Já não havia mais a necessidade de calzone. Poderia ser qualquer coisa. Necessidades primárias. Um pastel, uma fogaça, um empadão ou, até mesmo, um mísero Elma Chips. Precisava desesperadamente de algo para saciar aquela sensação de vazio.
Apressou os passos. Teria que sair da faculdade, um dia isto iria mesmo acontecer. Teria que procurar lá fora o que não encontrara aqui dentro. Encontrou no bar. Um kibe, o último do balcão. Gorduroso e grande, bem do jeito que sua fome queria. Um real e quarenta. Sentou, relaxado. Mordeu vagarosamente a massa, já fria, do alimento. Que delícia. Lembrou da Xerox. Estava sentado na mesa de reuniões. Muitas assistentes em sua volta, mulheres lindas, perfumadas, sorriam-lhe com seus dentes brancos. Começou a pensar num slogan. Mais uma mordida no kibe. Passou o guardanapo nos lábios. Era isso, num insight saiu: Xerox, reproduzindo a vida. Agora sim, sentia-se galgando a pirâmide de Maslow. Pediu uma laranjinha, ainda tinha um real e onze centavos, uma fortuna. Isto é que era vida.

Um comentário:

Haas Duman disse...

Era voce o cara? Só de ler me deu fome. Aqui nao tem calzone de frango, nem coxinha nem kibe. Que saudades desses maltratos deliciosos.

Abracos