segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Chantilly Sonhos & Doces

[este não é bem um conto, mas resolvi guardar aqui]

Pablo Uerblen Nechuda e Maria Da´Macir Nechuda tiveram uma vida pacata até os anos 50 no Peru. Vindos de uma família humilde, o sorridente casal, tinha uma fibra firme e esmero no trabalho. Maria desde seu casamento cuidava da culinária de casa com carinho e atenção enquanto Pablo, destemido homem do campo, deliciava-se com os quitutes da Maria.

Em 1952 o casal resolveu estender aos vizinhos as delícias produzidas pela velha peruana. Com seis filhos pequenos, Yosek Uerblen Nechuda, Madupancha Uerblen Nechuda, Xapecoléco Macchupichu Nechuda, Neilluda Vioben Nechuda e o pequeno Leandrón Tuxoleta Nechuda a esforçada Maria dividia seu tempo entre o fogão à lenha e as fraldas dos rebentos. Durante os cinco anos seguintes produziram bolos, pães e deliciosos ´Rosquetones´ bolinho tradicional peruano, feito de folhas de Yaushka com recheio de Peiote do Campo. Os bolinhos, carinhosamente, nomeados pelos viajantes como ´Rosquetones´ foram o primeiro grande sucesso do casal. Nesta época ainda não havia um nome definido para o pequeno empreendimento. Em 1959 expandiram seus negócios e abriram sob o nome ´La Roquesta Da´Macir ´, dando ênfase aos famosos ´Rosquetones´.

Os negócios foram bem até o ano de 1972 quando o sistema econômico veio a ruir. A ditadura peruana fechou o cerco contra as produções caseiras de brioches e empanados, alegando que a venda de Rosquetones estava subvertendo a ordem e causando instabilidades na administração governamental. Desta forma, sem alternativas, o casal e seus seis filhos embrenharam-se numa fuga do país. Num primeiro momento encontraram abrigo na Bolívia. Lá conheceram Manuel dos Reis, renomado escritor e empresário. Manuel ajudou a família peruana durante três anos e ensinou a Maria a arte de fazer doces portugueses e também técnicas de extrusão de pellets de plásticos. A vida transcorria tranqüila e em 1976, Pablo, já cansado de andanças, mas para não deixar seu filho do meio, Madupancha, se envolver com as FARC, resolveu ir embora da Bolívia. Após uma consulta aos búzios e jogos de Tarôt, ficou decidido que deveriam vir para o Brasil, especialmente para a região Sul deste país. Foi desta forma, com uma mala nas costas e seis filhos a tiracolo, que em 1978 desembarcou em Blumenau Pablo Nechuda.

Madupancha havia conseguido dinheiro suficiente para que todos fizessem a viagem de trêm e ainda havia sobrado cascalho para comprar uma pequena casa na germânica cidade de Santa Catarina, dois carros, uma moto e um pequeno prédio comercial próximo ao Rio Itajaí-Açu, região central de Blumenau. Pablo estava feliz e cansado. Maria ensinava aos seus filhos, especialmente à Neilluda, as artes da cozinha e da confeitaria. Para o mais novo, Leandrón Tuxoleta, ela ensinou a técnica de extrusão de pellets, que no futuro poderia ser de muita valia. A família viveu feliz na cidade que os acolheu com tanto carinho. Montaram sua doceria em 1983, quando o dinheiro que Madupancha havia conseguido estava acabando. Precisavam de um ofício. Todos trabalharam unidos. Maria e Neiluda cuidavam da produção, Xapecoléco e Yosek atendiam os consumidores no balcão, Leandrón ficou responsável pela administração interna, limpeza e estoque, enquanto Madupancha cuidava do caixa e das ações de marketing da empresa. Pablo ficou em casa, descansando. Dentro desta organização e com muita festa no dia 15 de fevereiro de 1983 foi inaugurada a “Chantilly, doces & sonhos”.

Desde o começo a empresa contava com uma forte concorrência das confeitarias alemãs, mas seu diferencial – o Rosquetone e os bolos portugueses – foram o suficiente para garantir o sucesso da empresa. Durante 10 anos a empresa progrediu e avançou no mercado. Criou novos produtos como os bolos para as noivas com estampas sexys e bolos para festas de debutantes em cores vibrantes. Fortaleceram sua marca com anúncios na mídia local e campanhas relâmpagos. Além de ações de invasões nas empresas para degustação de produtos novos que estavam sendo lançados no mercado. Com este arrojo e sempre voltados para seu principal objetivo, satisfação total do cliente, a Chantilly expandiu suas fronteiras. Abriu lojas em Gaspar, Brusque, Joinville, Itajaí e na pequena cidade de Antônio Carlos. Sucesso estrondoso.

Com passar dos anos desenvolveu um sistema de produção e entrega eficaz. Lançou o sistema “Buelo Delivery” que fazia a entrega de bolos nas festas de aniversários, casamentos e até nos chás das cinco. Tudo ía muito bem, até que em 1995 Pablo morre. Morreu deitado, dormindo em sua rede. Maria não resistiu à morte do marido, definhou e morreu dois meses depois. Abalado Madupancha vendeu tudo, deu uma parte do dinheiro para os irmãos e fugiu para o México. Passou dois anos envolvidos em noitadas e em companhia de pessoas de pouca confiança. Um certo dia, sentado à beira do deserto teve uma visão e decidiu voltar para o Brasil, rever os irmãos e morar numa ilha. Determinado comprou um carro com o último dinheiro que restava no bolso. Viajou dia e noite sem parar e finalmente chegou no Brasil, Santa Catarina, mais especificamente, Florianópolis. Corria o ano de 1998 quando ele debruçou-se sobre o trabalho de procurar seus irmãos.
Conseguiu a dura custa convencer Yosek a voltar do Peru, lugar para onde havia voltado após a venda da rede. Yosek, já casado e mais cabeludo, voltou rapidamente para os braços do irmão. Xapecoléco havia comprado uma chácara no oeste do estado e estava desanimado para voltar. Neilluda havia aberto uma pequena loja de confecções, estava casada e mais magra. Leandrón Tuxoleta foi mais fácil, ele havia tornado-se um artesão, vivia pelas ruas de Gaspar fazendo estuetas de Durepox.

Foi nesta fase que Madupancha encontrou Jarmíneo Orelhas Quatro. Jarmíneo teve um papel fundamental na história atual da Chantilly. Pescador e profundo conhecedor da vida urbana da capital catarinense, Jarmíneo, sabia exatamente os melhores locais para se atuar. Foi com sua ajuda que os irmãos, novamente reunidos, compraram o ponto no Estreito, em Florianópolis, para montar sua confeitaria. Este foi um ponto estratégico para o negócio. Bem localizado, no continente, região de bom fluxo de pessoas, próximo ao centro e perto de outros bairros residenciais. Então em 2 de fevereiro de 1999 reinaugurava a ‘Chantilly, sonhos & doces’. Agora, além da bagagem pessoal de cada um, traziam juntos o Jarmíneo como sócio. Começaram devagar, porém, com o know-hall adquirido das experiências anteriores, rapidamente conseguiram se destacar e em meados de 2000 inaguraram sua loja no centro de Florianópolis. E, em mais uma dica certeira do Jarmíneo, investiram numa loja no Kobrasol. Esta estrutura se mantém até os dias atuais.

As receitas foram diversificadas, não produzem mais os famosos Rosquetones como forma de homenagem a Maria e todos os meses fazem uma festa de confraternização com os funcionários em lembrança de Pablo.

O mix de produtos atuais ganhou uma maior variedade, bolos de diversas formas e sabores, salgados de forno, empanados e doces clássicos como “Baba de moça” e “Torta Alemã” fazem parte do cardápio. Contam com um sistema de delivery com dois carros e se preparam para lançar um novo produto, que já promete ser sucesso. O bolo “Festerê”. Um bolo com três camadas diferenciadas e com um tamanho adequado para festas de confraternização em escritórios e empresas. Este bolo conta com o diferencial de ser feito com leite puro e frutas frescas. Uma deliciosa cobertura de chantilly, com pedaços de frutas, dão o acabamento. O produto terá três opções pré-determinadas: “Festerê Jurerê”, “Festerê Moçamba” e “Festerê Santinho”. Os nomes geniais também foram uma sugestão do sócio Jarmíneo. A família continua feliz e crescendo. Madupancha acredita quem em dois anos conseguirão abrir lojas em todo o estado.

4 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Haas Duman disse...

hahahaha! Que viagem cara. Imagino q deva ter escrito isso na época da faculdade. Imagino também a mente fértil q vc tem. Nao é a toa que estas na área da Publicidade. Mto engraçada a historia.

Tenho só uma correçao. É "know-how" e nao "know-hall".

Beijao mano!

Neilla disse...

Amo essa história. Várias risadas; várias lembranças .. tempo bom !!
Beijo, Neilla, ou, Neilluda.

Unknown disse...

gostei destes peruanos, melhor que sejam obreiros e façam da união e do trabalho conjunto a unificação da família o elo fundamental e que precisa ser valorizado nos dias atuais, pois a base de tudo é uma família estruturada até mesmo para fazer "rosQuetones".

Sinésio de Araújo - Londrina-PR